O Papel do Racionalismo lógico Na Escola Austríaca

Racionalismo é uma corrente filosófica que responde à questão de como o conhecimento a priori pode ser o único método para se desenvolver conclusões auto afirmativas. O racionalismo surgiu com os filósofos Eleatas, que o justificaram através do monismo. Uma postura monista defende que a ideia de substância é imutável em sua essência, pois advém da ideia do axioma de Parmênides (“todo objeto é idêntico a si mesmo”), logo tudo que existe na natureza é único, e dela se deve retirar proposições reais e objetivas. Tal postura é muito importante para que o articulador da argumentação não caia em contradição. A Escola Austríaca de Economia tem grande influência desta doutrina como origem fundamental de sua tríade epistemológica: “Ação Humana, tempo dinâmico e limitação do conhecimento”, o que Ubiratan Iorio define:

Esses três elementos são por assim dizer a pedra angular do monumental edifício teórico que constitui a Escola Austríaca de Economia. Por analogia com a biologia, representam os elementos essenciais, ou seja, aqueles necessários para o desenvolvimento e a manutenção do organismo, e são a um só tempo os macronutrientes ou os micronutrientes de todo o sistema. Deles emanam os elementos de propagação e neles se assentam todos os elementos essenciais às deduções lógicas e às propostas de natureza prática. ”

A primeira designação de praxeologia foi desenvolvida por Louis Bourdeau em “Theorie des sciences. Plan de science integrale” e foi um termo empregado com objetivo pela primeira vez por Espinas em seu artigo “Les orígenes de la technologie!”.  A praxeologia como ciência foi utilizada por Ludwig Von Mises e pelos seus sucessores austríacos. Ela é definida como a manifestação da ação humana. Esse método utiliza padrões lógicos do pensamento. O Axioma da Ação Humana é uma teoria auto evidente, pois para negar sua validade o argumentador se retira de um estado menos satisfatório, para um estado mais satisfatório. Kant defende axiomas como:

[…] só por ele podem as matemáticas puras [Ou qualquer ciência] aplicar-se com toda a sua precisão aos objetos da experiência, e sem ele não só não seria evidente por si mesma sua aplicação, como também daria margem a certas contradições.”

A partir disso, a Escola Austríaca se fundamenta na lógica para estabelecer os princípios econômicos, irei destacar dois:

(1) Bens Escassos: Bens são escassos, logo homens tendem a sair sempre de um conforto menor para um maior para adquirir outros bens escassos, o que implica utilizar o maior bem escasso existente: o próprio corpo.

(2) Cataláxia: Mises define cataláxia como “análise daquelas ações que são conduzidas com base no cálculo econômico” e por cúmulo, Mises concretiza sua teoria de cataláxia na praxeologia. Tal teoria defende a autonomia do indivíduo perante o mercado o que por consequência leva às outras teorias econômicas como a lei de Say, teoria das relações de troca e preços, teoria quantitativa da moeda e outras leis e teorias Laissez-faire.

Já que toda ação humana demanda mudança, isso exige uma ordem temporal mutável e dinâmica. Já que o tempo é dinâmico, todo acontecimento deve ganhar premissas a priori, para que sejam universalmente aceitas. Desse modo que a Escola Austríaca previu a crise de 2008 e a atual crise brasileira. Não foi por mágica ou por força sobrenatural, mas sim por conhecimentos já pré-existentes como a teoria quantitativa da moeda e toda teoria de ciclos econômicos. Deduções a posteriori devem ser fundamentadas na operação dos princípios do pensamento econômico. Assim sendo, o tempo deve ser analisado como uma estrutura mutável pela subjetividade dos indivíduos e suas ações, e todas causas devem ser analisadas por um caráter factual e incontestável. Diferente do Materialismo que reduz a história pelas forças materiais produtivas, o que Mises critica:

Eles compararam o funcionamento da mente humana com a operação de uma máquina ou com os processos fisiológicos […]  Uma máquina é um aparato construído pelo homem. É a realização de um projeto, e funciona exatamente de acordo com o intento de seus autores. O que produz o produto de sua operação não é algo dentro dela, mas o propósito que o construtor queria atingir através da sua construção. Quem cria o produto não é a própria máquina, mas o seu construtor e o seu operador […] Os pensamentos e ideias não são fantasmas; são reais. Embora intangíveis e imateriais, eles são fatores responsáveis por produzir mudanças no reino das coisas tangíveis e materiais”.

Desse modo, pode-se retirar novamente duas observações:

(1) As observações austríacas fogem da dicotomia entre a Metafísica da Substância de Parmênides e a Filosofia do processo de Heráclito, pois os fenômenos econômicos são dados por um axioma básico das ações, que pelas subjetividades humanas desenvolvem um processo temporal.

(2) Não se deve reduzir o tempo em uma linhagem determinista, pois desse modo não existiria sentido de se estudar história, e nem propor a história sobum ponto de vista relativista, já que a História estuda o fato e não o ponto de vista do autor. Dizer que a verdade é relativa é cair em contradição, já que para dizer que a verdade não é absoluta, o argumentador deveria pressupor uma verdade objetiva para chegar a uma conclusão que a verdade não é objetiva. Logo, os economistas austríacos se baseiam na observação racional dos fenômenos históricos. Por exemplo, suponhamos que existam dois indivíduos em uma sala de quatro paredes; um indivíduo que é portador de dicromatismo está no ponto C e o outro com uma visão normal estão em um ponto B; existe uma bola vermelha no canto A da sala; o interlocutor daltônico observa a bola vermelha como verde já o que possui a visão normal, vê a bola vermelha como vermelha. Logo, a bola vermelha continua sendo ontologicamente vermelha, mesmo com o ponto de vista do autor daltônico seja diferente. Com essa analogia se indica que a verdade está no fenômeno do objeto histórico de estudo, e não baseado na opinião do autor.

Vale ressaltar uma observação, o fato histórico deve sim ser analisado pelo homem, pois toda ciência precede algo que pensa sobre o próprio fato. Assim sendo, a ação humana perante a história deve ser valorizada, pois sem ela não se chega a verdades universais e absolutas. Percy Greaves Jr. analisa em seu livro Mises Made Easier:

Compreensão é mais o resultado da percepção intelectual do que do conhecimento factual, embora não deve nunca contradizer os ensinamentos válidos dos outros ramos do conhecimento, inclusive os das ciências naturais. A compreensão é usada por todo o mundo e é o único método apropriado para lidar com a história e com a incerteza das condições futuras, ou em qualquer situação em que o nosso conhecimento seja incompleto”

Deparando-se com as incertezas de certos escritos, entra o terceiro fator básico para a lógica austríaca, a limitação do conhecimento. Logo, se o conhecimento é limitado, qual a lógica de um déspota determinar o que outros indivíduos devem abstrair para si? Desse modo, os economistas austríacos determinam que preços e serviços são demandados por uma ordem espontânea de fenômenos. Como determinar qual é a inflação correta a ser aplicada, a taxa de juros que pode gerar o maior nível de bem-estar para a maioria dos indivíduos e diversos outros aspectos? Hayek chama esse fator de “Arrogância Fatal”. A centralização da ordem não só quebra vínculos sociais, como também gera um caos absoluto. Se existe um direito que vai contra as liberdades de escolhas civis, esse direito não é somente imoral, mas sobretudo ilógico. Hoppe – por meio de uma ética argumentativa – determina que o único padrão do direito que segue a lógica é a propriedade, esta sendo inalienável.

Primeiro, a argumentação não é somente uma tarefa cognitiva, mas também prática. Segundo, a argumentação, como uma forma de ação, implica o uso de recursos escassos de um corpo. E terceiro, a argumentação é um meio de interação não conflituoso, não no senso de que sempre há acordo sobre o que é dito, mas no senso que, enquanto a argumentação está em progresso, é sempre possível concordar pelo menos quanto ao fato de que há discordância sobre a validade do que tem sido proposto. E isto significa nada mais que um mútuo reconhecimento do controle exclusivo que cada pessoa exerce sobre seu próprio corpo e que deve ser pressuposto enquanto houver argumentação”

Favor não confundir limitação do conhecimento com ideias serem escassas. Ideia é uma abstração de conhecimentos que existem independente de indivíduos conhecerem ou não, já o conhecimento é uma ideia que o indivíduo “conhece” e abstrai para si. Ideias não são escassas, ideias são transpassadas por vários autores que dedicaram conhecimento adquirido por isso. Tais autores, possivelmente não detinham conhecimento absoluto sobre tudo, caso contrário não faria sentido o estudo da ciência.

À vista disso, o que decorre deste artigo é tratar a argumentação das ciências humanas por um caráter apriorístico, o qual a Escola Austríaca o emprega de forma precisa e honesta. A máxima que deve ser retratada aqui, é que argumentos que não seguem a lógica não devem ser alternativa para se julgar uma asserção, não só para a Escola Austríaca, mas para toda a comunidade acadêmica.

Referências:

IORIO, Ubiratan. “Ação, tempo e conhecimento: A Escola Austríaca de economia”. Disponível em http://www.mises.org.br/files/literature/A%C3%A7%C3%A3o%20tempo%20e%20conhecimento.pdf

SWIATKIEWICZ, Olgierd. “Por que não uma abordagem praxeológica?!”. Disponível em http://www.scielo.mec.pt/pdf/aps/v15n4/v15n4a10.pdf

KANT, Immanuel. “Crítica a Razão Pura”. Disponível em http://www.psb40.org.br/bib/b25.pdf

HOPPE, Hans Hermann. “A Ciência Econômica e o Método Austríaco”. Disponível em http://www.mises.org.br/files/literature/A%20Ci%C3%AAncia%20Econ%C3%B4mica%20e%20o%20M%C3%A9todo%20Austr%C3%ADaco%20-%20WEB.pdf

MISES, Ludwig Von. “Teoria e História”. Disponível em http://www.mises.org.br/files/literature/MisesBrasil_TeoriaeHistoria_Brochura.pdf

MISES, Ludwig Von. “Ação Humana”. Disponível em http://www.mises.org.br/files/literature/A%C3%A7%C3%A3o%20Humana%20-%20WEB.pdf

HOPPE, Hans Hermann. “Uma Teoria do Socialismo e do Capitalismo”. Disponível em http://www.mises.org.br/files/literature/Uma%20Teoria%20sobre%20Socialismo%20e%20Capitalismo%20-%20WEB.pdf

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