Os Iluminismos sob o olhar de Gertrude Himmelfarb

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Gertrude Himmelfarb nasceu no bairro do Brooklin em 1922. De origem judia, formou-se em Filosofia e História na Brooklin College, faculdade ligada à Universidade de Nova York (CUNY). Curiosamente, a instituição onde estudou era conhecida como a “Harvard do proletariado”. Durante a graduação ela, seu futuro marido (Irving Kristol) e vários outros judeus participaram de movimentos trotskistas como o Young People’s Socialist League (Liga Popular da Juventude Socialista), braço oficial Partido Socialista americano. Himmelfarb e boa parte de seus colegas afastam-se do movimento trotskista e, gradualmente, migram para o pensamento conservador. Inicia o mestrado em história sobre revolucionário francês Robespierre pela Universidade de Chicago e em 1946 migra para a Inglaterra e realiza seu doutorado pela Universidade de Cambridge sobre Lord John Dalberg-Acton (1834-1902).

Em seu livro mais notório, “Os caminhos para modernidade”, a autora defende a ideia de que o Iluminismo foi um período histórico de intensa produção intelectual e é entendido como consequência de vários ideais humanistas que surgiram no período do Renascimento e que, desde então, ganharam corpo político e intelectual (filosófico, científico e artístico), portanto os vários iluminismos da época “beberam” do mesmo zeitgeist (espírito da época), porém, a partir de suas singularidades cada um realizou construções teóricas e suas consequências sociais diferentes.

A autora demonstra que entre os motivos da associação do conceito de Iluminismo aos franceses, destaca-se o fato de terem estabelecido uma confiança extremada na razão; eles próprios denominarem o período em que viveram de “Século das Luzes” e o período passado como “Século das Trevas”; a criação da Enciclopédia francesa, uma tentativa de fazer uma obra definitiva e universal do conhecimento humano e, por fim, a revolução francesa.

A característica principal do Iluminismo francês encontra-se na valorização suprema da razão. Himmelfarb aponta que a tradição racionalista inicia-se com Descartes que presente firmar a razão como “algo firme e constante nas ciências que não dependa de opiniões, da experiência e, tampouco da fé” ganhando, assim, “a confiabilidade e a estabilidade que os sentidos não podem oferecer. Sendo assim o conhecimento estará estabelecido sobre a razão e não sobre a experiência” (p.91), a consequência desse tipo de pensamento será abstração da razão e sua desvinculação de qualquer aspecto da natureza e da experiência será a criação de teorias que levem em consideração somente aspectos racionais. Outra consequência justificada é o distanciamento, a negação e o combate a toda forma de conhecimento que não seja puramente racional e que tenha abertura para o natural e a experiência como a tradição, os costumes e a religião. A enciclopédia francesa tinha como base ideológica esse tipo de pensamento.

O desejo dos iluministas franceses era organizar racionalmente uma sociedade e sua cultura em busca de uma perfeição, uma nação de filósofos. Para tanto, era necessário nascer um novo homem, para uma nova sociedade. O resultado dessas ideias todos já sabem: a guilhotina é seu maior símbolo.

O conceito de liberdade não estava claro para os revolucionários franceses. Preferiram a figura de um déspota esclarecido, do que as ideias de Montesquieu de separação dos poderes (sendo melhor recebidos nos países anglo-saxões), pois viam a imagem deste como a materialização da razão.

Com a figura do déspota esclarecido conseguimos compreender uma ideia, mesmo que não demonstrada conscientemente, de uma figura central, conhecedor de todas as particularidades humanas, ignorando, assim, a concepção de tradição liberal inglesa de que o conhecimento humano encontra-se disperso em toda a sociedade, logo, torna-se impossível a sua centralização.

Outra forma de como os franceses identificavam como materialização da razão foi na ideia de “vontade geral”, sendo Rousseau e Diderot seus principais defensores, sendo entendido como “o processo pelo qual a razão particular (individual) transfere para a vontade coletiva a sua legitimidade, de forma que esta última tome o seu lugar e seja ela a instância produtora da racionalidade, da moralidade, da verdade, uma vez que teria sido legitimada pelo ato constitutivo da coletividade que é a vontade geral, materializada na forma de parlamentos e Estados” (p.82).

Himmelfarb apontará que o Iluminismo britânico historicamente surgiu primeiro e eram movidos por outros interesses e fundamentos. Esta forma de iluminismo se baseia na concepção de sentimentos morais que possui como pressuposto que “o senso moral é anterior à razão porque é universal aos homens. Os sentimentos de benevolência, compaixão e solidariedade ocorreriam mesmo antes de a razão entrar em cena nas ações humanas no campo social” (p.65). Com isso podemos perceber uma preferência em situar a razão como secundária no homem, valorizando, assim, os sentimentos e a experiência humana que são vistos como uma tendência humana e até mesmo como forma de confirmar seus pressupostos.

Adam Smith é considerado seu maior representante em seu livro “Teoria dos sentimentos morais” (1759). Apesar de atualmente ser conhecido como economista, em sua época era lembrado como grande filósofo da moral. Nesta obra o autor elabora a tese de que os sentimentos e a moral são elementos fundamentais para qualquer sociedade e cultura, pois possuem a função de aproximar e preservar seres humanos. A razão, portanto, teria a função de dar expressão às regras.

Em “A riqueza das nações” (1776) o autor dá prosseguimento às ideias anteriores e dirá que “o encontro dos múltiplos interesses individuais, o que seria a forma mais segura de promover o bem coletivo, materializado no incremento da riqueza da nação, entendida aqui como o povo que a compunha, como pessoas que vivem e trabalham em sociedade. A riqueza desse povo seria é aumentada a partir de uma política econômica que privilegiasse a liberdade” (p.69). A busca individual pela melhoria da qualidade de vida em uma sociedade de livre mercado faz parte de uma visão que valoriza a liberdade em seus diversos aspectos como o econômico, religioso e civil, além do aspecto civilizatório de introduzir a moderação, a pacificação e a ordem.

Referência: BUENO, J.L. Gertrude Himmelfarb: Modernidade, Iluminismo e as virtudes socias. São Paulo: É Realizações, 2015.

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