O moralismo brasileiro disfarçado de conservadorismo

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No Brasil de hoje, atribui-se às pessoas religiosas, de “família tradicional” e de direita a alcunha de “conservadores”.  A denominação é aceita e utilizada tanto pelos opositores dessas ideias quanto pelos seus defensores, o motivo disso: ignorância. Nenhum destes dois lados sabe o que de fato é conservadorismo, muito menos como essa filosofia seria aplicada no Brasil.

Para explicar a filosofia conservadora e como ela se aplica ao Brasil, é indispensável utilizar Roger Scruton, filósofo e conservador britânico, e Bruno Garschagen, mestre em ciência política e conservador brasileiro (este, pela definição de “conservador”, é genuíno).

Os que já leram Scruton aprenderam que ser conservador é proteger a identidade cultural de um povo, entendendo identidade cultural como os costumes políticos, sociais e comunitários de convivência, Scruton passa a mensagem de que o conservadorismo transcende religião e “padrões de família” que podem ser, ou não, ingredientes da identidade cultural de um povo.

Tratando das sociedades que, como a brasileira, possuem forte influência religiosa, Scruton diz:

“A obediência religiosa, no entanto, não é um elemento necessário da cidadania e, em qualquer conflito, são os deveres do cidadão, não os do crente, que devem prevalecer” (SCRUTON, Roger. 2015. Como ser um conservador. Editora Record)

Por este texto, concluímos que verdadeiros conservadores não impõem seus conceitos morais ou religiosos a terceiros, conservadores almejam preservar valores culturais que unem a sociedade e por ela são criados, mas os conservadores se dividem se é dever do Estado garantir esses valores morais ou se este é um dever que cabe apenas ao cidadão.

Em terras tupiniquins, o conservadorismo exige resgatar o passado, voltando aos tempos onde ainda éramos colônia portuguesa. Gostem os brasileiros ou não, nosso tempo como colônia portuguesa causou o início da nossa cultura econômica e política. Quando o Brasil se tornou a capital do Império, demos um salto no seu desenvolvimento social, político e econômico, aprimorado pelo conselheiro do Rei D. João VI, o liberal Visconde de Cairu que foi essencial na abertura dos portos para as nações amigas.

Após a declaração da independência, o Brasil teve na monarquia parlamentar uma constituição mais liberal que qualquer outra até o presente momento. O parlamento era dividido entre o partido conservador e o partido liberal e ocupado por nomes como Joaquim Nabuco, o Barão do Rio Branco, o Marquês de Caravelas, o Visconde do Uruguai, José Bonifácio de Andrada e Silva e o já citado Visconde de Cairu.

Apesar do debate da época ser heterogêneo, a elite política não era, pois ambos os partidos eram igualmente monarquistas e dependentes do estado, isso levou a “aberrações” como o deputado liberal Bernardo Pereira de Vasconcelos, crítico da intervenção do estado na economia, mas ao mesmo tempo defensor da manutenção da escravidão por parte do estado.

A diversidade de ideias do parlamento se transmitiu pra sociedade, apesar do baixo nível de formação dos cidadãos brasileiros, os mesmos não possuíam repulsa pela política. O Imperador e os parlamentares eram respeitados pela população, a própria abolição da escravatura só se tornou possível pela relação de mútuo respeito e compreensão entre a família real e a população brasileira que por 40 anos enfrentou políticos e fazendeiros escravocratas que acreditavam em um colapso econômico causado pelo fim da escravidão. A conclusão desse período histórico é: diferentemente de hoje, a população brasileira na época do Império não possuía repulsa pela política, era menos escolarizada, mas mais consciente. Comprovando que noções de responsabilidade individual não são ensinadas em escolas, mas desenvolvidas culturalmente.

Com o fim da escravidão, os escravocratas não mais apoiavam o sistema monárquico e com o fim da Guerra do Paraguai, o exército brasileiro adquiriu poder político. Estes dois fatores somados a insatisfação das elites econômicas e políticas, mais tarde seduzidas pelo positivismo republicano, levaram ao golpe militar que depôs e expulsou a família imperial e iniciando a república brasileira.

Com o fim da monarquia, as instituições republicanas falharam em fixar as falhas do sistema anterior, mas a falta de preparo dos novos líderes minou a política nacional e o poder executivo foi inflado, sobrepondo-se ao legislativo e instaurando uma ditadura militar. Em suma, república brasileira se espelhou na república estadunidense, mas o resultado foi uma trágica caricatura.

Os republicanos e positivistas pós-golpe estavam decididos a destruir todo o legado da monarquia, fosse ele positivo ou negativo. A casa de Bragança foi banida do país e D. Pedro II apenas não reagiu violentamente por não desejar uma guerra civil. Após sua morte, na França, D. Pedro II foi homenageado pelos franceses como poucos estadistas franceses já foram, mas o povo brasileiro só ficou sabendo meses depois do ocorrido e o governo brasileiro cortou relações diplomáticas com a França, cujo governo auxiliou o funeral de nosso ex-Imperador.

Desde então, não faltaram tentativas de desenvolver uma classe política conservadora, mas mesmo estes não mais detinham o respeito da população, pois a república nasceu como um golpe seguido de ditadura. Os anos seguintes foram de tentativas de secessão, ascensão de populismo, inchaço do estado e desgosto da população pela política. Hoje chegamos ao ponto onde poucos brasileiros sabem o que realmente é conservadorismo e menos ainda são verdadeiros conservadores, mas isso não impede a propagação do desconhecimento.

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