O ENEM, as escolas e a academia: como tudo está interligado

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Lembro-me do primeiro dia de aula do ensino médio. Depois de férias de dois meses, às 7 horas da manhã e para um público cuja idade girava em torno dos 14 e 15 anos, os professores já falavam do Enem, um exame indispensável para o ingresso numa universidade e cuja nossa preparação começaria naquele ano. Recém-saída do ensino fundamental, era difícil entender a necessidade de tanto tempo de preparação para uma única prova.

O Exame Nacional do Ensino Médio, principalmente desde 2009 em sua nova roupagem, vem afunilando cada vez mais a entrada em universidades tanto públicas quanto privadas. Por conta da sua importância, o Enem é um exame singular: mais do que uma prova conteudista e interpretativa, é também um teste de resistência – quatro e cinco horas de prova enfrentando 90 questões por dia. Tudo isso sob pressão de conseguir ou não uma vaga na faculdade.

Decidida pelas ciências humanas desde muito cedo, o que mais me fascina dentro área é o fato de poder analisar os mesmos fatos econômicos e sociais sob vários ângulos e abordagens. Isso possibilitaria ao estudante, em tese, uma maior abrangência de pontos de vista e uma ampliação de seus horizontes. Em tese.

Tese essa que foi refutada nas primeiras aulas de filosofia e sociologia do primeiro ano. E do segundo. E do terceiro. Além dos filósofos gregos e iluministas (já muito mal aprofundados), e sociólogos como Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx, é difícil aparecerem novos nomes que se perderam na imensidão da História para a maioria dos alunos de uma escola, seja pública ou particular. Mas não se deve atribuir toda a culpa às escolas. Quando se pensa num aluno secundarista com planos de passar em um curso muito concorrido, por exemplo, é bem possível que ele não queira conhecer mais nenhum outro filósofo que não “caia no Enem”, ou seja, que não lhe acrescentaria em nada. Esse tipo de conduta, por sinal muito recorrente, gera três tipos de alunos: aqueles desinteressados – por influência do sistema educacional ou não – que acabam repetindo o mesmo discurso automaticamente, os que acreditam cegamente no que aprenderam em sala de aula e nunca foram confrontados com autores de posicionamentos diferentes, e aqueles que, discordando de tudo que é (im)posto na escola, são obrigados a marcar alternativas que acreditam estar erradas.

O Enem 2015 nos dá uma pequena amostra disso: Avaliada por alguns professores como “a melhor prova nos últimos anos”[1], a prova de Ciências Humanas e suas Tecnologias abordou questões sobre Simone de Beauvoir, Paulo Freire, Slavoj Zizek, Milton Santos, David Harvey, além de textos da revista Caros Amigos, dentre outras referências bibliográficas. O grande problema aqui analisado não é uma prova do governo ter uma questão sobre a segunda onda do feminismo, que independente do posicionamento político de uns e outros, foi um movimento histórico – porque aconteceu e teve desdobramentos; mas perguntas que não têm respostas objetivas por depender de interpretações subjetivas, e também a falta de pluralidade ideológica dentro do Exame, algo inclusive que foi muito criticado nas redes sociais.

O que nos levaria a outra questão: jovens robotizados impregnados do discurso de “globalização causa desemprego” (sic) estão tomando conta das nossas mais importantes universidades, e os efeitos colaterais já estão sendo sentidos de um discurso que, intencionalmente ou não, está sendo produzido por acadêmicos para acadêmicos, deixando de lado toda a massa que banca diariamente por intermédio de seus impostos um universitário parasitário, que pouco produz para devolver à sociedade o que está tirando dela.

Respiro aliviada por ver que, de pouco a pouco, essa realidade está mudando. Percebi isso não só na Internet, onde, no meio a tantos memes, resistem discursos fortemente contrários à essa massificação de um único pensamento que ocorre hoje nas escolas e é reforçado no próprio Enem, mas também dentro das próprias escolas. É cada vez mais frequente alunos questionando seus professores, contestando-os com dados e trazendo novos pensadores para a sala de aula, aumentando e melhorando o debate.

Nesse sentido, o Enem está indo contra a realidade não só das escolas espalhadas por todo o país, mas também contra a própria realidade brasileira. A impressão é que a crise de 2008 ainda é mais importante do que a crise econômica que estamos vivenciando em nosso país – consequência clara do fato da prova ser preparada pelo governo. E a certeza fica: a falta do debate diversificado na academia é consequência direta da má elaboração da prova do Enem, e de toda sua preparação para o Exame no ensino médio.


[1] Site Guia do Estudante. Para professores, prova do primeiro dia do Enem 2015 foi ‘a melhor dos últimos anos’

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