IMPACTOS DA CRISE DE 1929 NA ALEMANHA E RECUPERAÇÃO DA ECONOMIA COM BASE NA EXPANSÃO DO MILITARISMO

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Por: Amanda Carla Ramos Pena

1- INTRODUÇÃO

O presente artigo busca investigar como a crise de superprodução em 1929 impactou a economia alemã, que já estava em recessão devido às imposições do Tratado de Versalhes, e sofreu mais um golpe quando os empréstimos estadunidenses – em favor da Alemanha- foram interrompidos em função da crise financeira. Em seguida faremos uma análise sobre a ascensão nazista, que se aproveitou desse momento de instabilidade econômica para se opor à cartilha ortodoxa seguida na Alemanha, para assumir o poder.

Uma vez que o partido nazista assumiu o poder, protagonizou uma recuperação econômica extraordinária, reduzindo grandemente o índice de desemprego por meio da ampliação expansão da dívida pública com gastos militares, tornando possível a concretização dos principais objetivos de Hitler numa mesma ação econômica que consistia em preparar a Alemanha para uma guerra e reorganizar financeiramente o país.

E em função da significância da crise de 1929 para o agravamento da situação financeira da Alemanha, e às consequências que a mesma deixou no país, faz-se necessário analisar tal colapso financeiro, que abalou as estruturas do sistema capitalista em todo o mundo, e repercutiu em várias áreas muito além do âmbito econômico, principalmente o político, propiciando o ambiente para a propagação das ideias como o  nacional-socialismo.

 

2-DESENVOLVIMENTO

 

2.1- A Crise de 1929

A crise de 1929 foi marcada por uma intensa, e generalizada queda da produção industrial da economia mundial, sendo desencadeada pela quebra da bolsa em Wall Street. De acordo com o gráfico da Figura 1, os sinais de crise financeira começam a despontar muito antes do crash da bolsa de Nova Iorque, quando as ações da bolsa de valores atingem o ápice de sua elevação, e logo após uma queda sequencial, deflagrando em 29 de outubro de 1929, um dia que ficaria marcado para sempre na história de Wall Street, a terça- feira negra. Mais de 16 milhões de ações foram vendidas provocando uma baixa das cotações tão grande que invalidou toda a valorização ocorrida desde 1927. (Gazier, 2009)

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Figura 1:  Cotação das ações na Bolsa de Nova York entre 1926 e 1938. Índice “Standard Statistics” (base: 1926 = 100)

Fonte: Bernard Gazier (2009: 05)

 

Em consequência ao desastre econômico do crash da Bolsa de Nova Iorque houve uma crise de liquidez, que gerou uma contração do crédito afetando diretamente o consumo, e por sua  vez a produção. Observado como os fatores econômicos funcionam em uma espécie de interdependência, Keynes, Mazzucchelli (2009), afirma:

Quando se adota uma perspectiva mais pessimista a respeito dos rendimentos futuros, não existe razão para que haja uma reduzida propensão a entesourar. Na verdade, as condições que agravam um dos fatores tendem, via de regra, a agravar o outro. Isto porque as mesmas circunstâncias que levam a perspectivas pessimistas sobre os rendimentos futuros conseguem aumentar a propensão a entesourar.

 

Na Alemanha por exemplo, houve uma explosão do desemprego, visto que houve uma queda drástica na produção, e consequentemente na demanda por mão de obra. Dessa forma conseguimos compreender porque uma das prioridades de Hitler, ao assumir o governo da Alemanha, era a de extinção do desemprego. Levando em consideração que, entre 1929 e 1933 9 milhões de alemães perderam seu empregos, temos um vislumbre da situação de penúria em que se encontrava a população alemã.

Outro ponto importante surge quando observamos que a crise afetou não só os Estados Unidos, mas também os países europeus que dependiam dos empréstimos internacionais concedidos pelos americanos, aos países devastados pela Primeira Guerra Mundial. Como num efeito dominó a crise que devastou Wall Street, também atingiu brutalmente os países da Europa, que sofreram as mazelas da maior crise do capitalismo já vista na história.

 

2.2- Conjuntura da Alemanha

Anteriormente à crise de 1929, a Alemanha já se encontrava em uma posição extremamente desconfortável economicamente devido às pesadas imposições do Tratado de Versalhes, que conduziram o país a uma instabilidade econômica sem precedentes, tornando a recuperação econômica um dos principais objetivos do governo. Para conseguir saldar suas indenizações de guerra e retornar à estabilidade econômica, fora formada uma comissão dirigida por Charles G. Dawes que elaborou as bases para o que ficou conhecido como Plano Dawes, que consistia num acordo estabelecido em 1924 que regulamentava o pagamento de reparações por parte da Alemanha.

O insucesso do Plano Dawe fica evidente por volta de 1928-29, quando se percebeu que o proposto em tal acordo era insustentável à economia alemã, outrossim com a quebra da bolsa de Nova Iorque, há uma interrupção dos empréstimos concedidos pelos Estados Unidos, agravando mais ainda a situação econômica do país, que irá abandonar a cartilha econômica ortodoxa, pois fica claro que a mesma não conseguia proporcionar a estabilidade econômica desejada pela Alemanha. No livro de Bernard Gazier (2009) sobre a crise de 1929 o autor confirma que:

As reversões dos capitais a curto prazo, pouco ou nada controladas ao longo desse período, resultantes das disparidades objetivas das situações no mundo, tanto quanto das antecipações de seus detentores, sucessivamente penalizaram e favoreceram diversos países. Inúmeros autores atribuem ao esgotamento dos empréstimos americanos em favor da Alemanha, durante o ano de 1928, a primeira retração da atividade industrial, anunciadora do desastre nesse país fundamentalmente devedor à época.

 

Nesse cenário de extrema instabilidade econômica, a harmonia social que pregavam os liberais clássicos, caiu em completa descrença. Agora havia duas alternativas postas ao destino alemão, sucumbir às forças do socialismo, que se tornara extremamente popular nesse dado momento, ou recorrer a uma política em que o Estado controlasse as principais atividades econômicas do país. Portanto, para conter o avanço do socialismo, os burgueses optaram por financiar o partido nazista, que vinha com a proposta de um estado intervencionista, porém não tinha por objetivo a socialização dos meios de produção.

 

2.3-Ascensão do Nazismo

Utilizando um discurso de repúdio ao laissez-faire, os nazistas aproveitaram para atacar os princípios do estado democrático. Ao contrário do New Deal de Roosevelt, que respeitava os preceitos da democracia, e apenas desenvolveu um novo modelo econômico, os nazistas rejeitavam os princípios democráticos e  escolheram submeter a economia aos desejos do Führer. Sendo assim,  o nacional-socialismo  se apoderou da crítica ao liberalismo para prosseguir com suas ideias absurdas de poder.

Seguindo na crítica ao liberalismo, os nazistas rapidamente começaram apontar culpados para as mazelas sofridas pelos cidadãos, nesse ínterim atacaram firmemente os sindicatos, o cooperativismo,  especuladores e banqueiros, que na maioria das vezes eram judeus. A aversão à ortodoxia serviria de base para o discurso de ódio Nazista, que de acordo com Mazzucchelli (2009) :

Sua crítica trazia implícita a destruição das mais elementares normas da vida democrática. O fechamento dos sindicatos, a dizimação dos comunistas, a perseguição aos judeus e o comando absoluto sobre a economia converteram-se em dimensões distintas de um mesmo processo: a busca fanática do reerguimento econômico e moral da Alemanha.

 

 

2.4- Expansão Militar e Recuperação Econômica

O acirramento das disputas que permaneciam vivas, porém adormecidas, desde a primeira guerra mundial, ocasionou a partir de 1933 um intenso aumento das despesas militares e uma corrida armamentista visando num futuro próximo a eclosão de outra guerra de enormes proporções, dadas as ambições do Terceiro Reich. Devido a tal expansão dos gastos militares a economia alemã foi impulsionada e houve grande queda do desemprego. Segundo Mazzucchelli (2009:247) o rearmamento foi vital para recuperação da economia alemã, pois reunia em torno de si todas as pretensões de Hitler, recuperar a economia do país e simultaneamente prepará-lo para a guerra.

Apesar das divergências teóricas, não se pode desprezar a importância dos gastos militares na recuperação da economia alemã, fica evidente na tabela abaixo a evolução do aumento da dívida pública para financiar a expansão militar, que tinha por objetivo final a preparação para a guerra, porém intermediariamente teve impacto direto na economia do país, evidenciando a relevância do militarismo na política adotada pelos nazistas.

Tabela 1-Alemanha: Despesas com o Rearmamento, Gasto Público e Renda Nacional (1933-38)

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Fontes: (1): Mazzucchelli (2000, 251);  (2): Overy (1996: 48); (3): Barkai (1990: 262); (4): Barkai (1990: 257)

 

Segundo a figura acima, podemos enfatizar que que o gasto público com a preparação para a guerra, atinge patamares próximos a 50% da dívida pública, demonstrando que, apesar de um intenso investimento do governo em outras áreas, como por exemplo a construção civil, o gasto militar se sobrepõe aos outros, deixando claro que o foco principal do Terceiro Reich era o fortalecimento da base militar, e através deste seria possível atingir os objetivos secundários de recuperar a economia e reduzir os índices de desemprego na Alemanha.

 

3- CONCLUSÃO

Fica evidente portanto, que a crise de 1929 marcou significativamente a história do capitalismo contemporâneo, pois afetou não somente os Estados Unidos, mas todo os países que dependiam economicamente da potência norte americana. Assim, compreendemos uma das razões do agravamento da crise econômica pela qual passava a Alemanha, pois esta estava totalmente dependente dos Estados Unidos por meio dos empréstimos para conseguir cumprir as exigências do Tratado de Versalhes.

Quando se verificou a impossibilidade de prosseguir com a política ortodoxa, o nazismo ganhou enorme adesão por parte da população, pois se apoderava do discurso anti-liberal para formular seu modelo político, rejeitando por completo a ameaça comunista, o que despertou especial interesse da classe burguesa, e com principal foco em tornar a Alemanha um país forte militarmente, e consequentemente uma potência econômica.

Desse modo, a prerrogativa do fortalecimento militar norteou a recuperação econômica do país,que passou a investir maciçamente no rearmamento e militarização objetivando uma futura guerra. É interessante ressaltar que com o investimento na militarização da Alemanha Hitler conseguiu alcançar seus principais objetivos de uma só vez, porque a economia reagiu positivamente demonstrando principalmente uma queda nos índices de desemprego e uma rápida ascensão do país como uma potência militar, que mais tarde iria dar o pontapé inicial para o segundo grande conflito mundial que marcou a história da humanidade.

4- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GAZIER, Bernard. A Crise de 1929. L&PM POCKET. 2009.

MAZZUCCHELLI, Frederico. Os Anos de Chumbo. Unesp, 2009.

 

 

 

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