Grupo Domingos Martins entrevista o venezuelano Carlos Mendoza: “Sonho que meu povo conheça a liberdade”


Carlos Jesús Mendoza Rodriguez, de 24 anos, nasceu na cidade de Guayana, a seiscentos e setenta quilômetros da capital Caracas, Venezuela. No auge de sua juventude, Carlos deixa para trás um país que vive a maior crise de sua história, para viver um sonho de se especializar em sua profissão em terras capixabas.

Chamado pela AIESEC para ingressar em um estágio de uma Start-Up na capital, o venezuelano está no Espírito Santo há pouco mais de uma semana. Se empenhando em aprender a língua e a cultura local. Carlos conversou com o Grupo Domingos Martins e contou os momentos difíceis que ele e sua família passaram juntos na Venezuela, seus sonhos para o seu país e sua vontade de ver o seu povo livre. Confira:

 

GDM: O que te trouxe a Vitória? Porque você deixou a Venezuela?

Carlos: Recebi um convite da AIESEC pra um estágio em uma Start-Up aqui do Estado. Pretendo aproveitar ao máximo, aprendendo a língua portuguesa e obter experiência profissional em minha área.

 

GDM: Então pretende voltar ao seu país em breve?

Carlos: Em breve, não. Por agora, estou procurando por experiências que me permitem desenvolver como profissional na minha área. Atualmente, há uma grande demanda por especialistas como desenvolvedor de web, por isso, quero me especializar ao máximo aqui e viver essa experiência de morar no exterior por um tempo. Na Venezuela, até tenho empregos na área, mas o salário é baixo e a qualidade de vida é muito ruim.

 

GDM: Você deixou para trás uma Venezuela que se encontra em uma situação econômica e social bem conturbada. O que você, como cidadão venezuelano, presenciou em seus últimos momentos por lá? Quais eram as dificuldades enfrentadas pelo seu povo?

Carlos: Nos últimos dias em que eu estava na Venezuela, testemunhei dificuldades na obtenção de alimentos. A indústria de alimentos na Venezuela diminuiu muito desde que o governo começou a estatiza-la. Por isso, temos a escassez e é muito difícil conseguir comida agora.

Particularmente, o que me lembro é que minha cozinha estava cheia de produtos brasileiros, trazidos de Boa Vista para a minha cidade. Produtos como arroz, farinha de trigo, manteiga, massas, óleo, que antes eram produzidos na Venezuela, agora vem do Brasil. Os seus preços são muito elevados, mas as pessoas devem ainda sim comprá-los, porque na Venezuela não se tem mais comida.

 

GDM: Sobre essas dificuldades. Em sua opinião, o que ocasionou a atual crise venezuelana?

Carlos: A atual crise econômica é devido aos 17 anos de medidas econômicas erradas. Isto é o que acontece quando há pessoas no poder que colocam sua ideologia política sobre o bem-estar social. A crise que vivemos não é apenas por causa de Maduro. Na verdade, desde Hugo Chavez o país vinha decaindo. No início, era uma crise política, mas, em seguida, tornou-se também uma crise econômica e social.

 

GDM: E quais seriam as melhores soluções para combater essa crise?

Carlos: A primeira coisa que deve acontecer é a saída de Maduro. Ele não sabe como dirigir o país e se preocupa somente em como permanecer no poder de qualquer forma. Este ano ainda, deve ser feito um referendo para que Maduro saia do poder. Tem que se mudar o rumo do país. Devemos eleger um novo presidente que inicie um novo plano de recuperação econômica. Devemos renovar as nossas instituições e começar a atrair investidores para o país.

 

GDM: Como a população tem reagido diante dessas dificuldades? A maioria apoia as medidas do governo?

Carlos: Atualmente, a maioria dos venezuelanos não suportam Maduro. Sofremos escassez de comida, insegurança, impunidade, desemprego e pobreza. As leis não são aplicadas, e quando são, apenas para favorecer o governo. Nós somos um dos países mais corruptos do mundo.

Existe agora uma profunda rejeição de todas as medidas do governo. Apenas um pequeno setor que os apoia. No entanto, muitas das medidas anunciadas pelo governo nunca virão a ser implementadas. Eu as rejeito totalmente, por serem populistas e por servirem apenas para comprar a lealdade dos venezuelanos.

 

GDM: Para você, o que é a Liberdade?

Carlos: Para mim, liberdade é expressar sua opinião sem medo de represálias. A liberdade é deixar o seu país por escolha, não por necessidade. A liberdade é ir ao supermercado e escolher o que comprar, ter opções. É ir na rua sem medo de ser assaltado ou sequestrado. É você contribuir diretamente para a construção de seu país.

 

GDM: O povo venezuelano é livre, em sua opinião?

Carlos: Não, nós não somos livres. Temos um presidente que não quer deixar o poder, instituições totalmente tendenciosas, uma economia arruinada e alto índice de insegurança.

 

GDM: Sobre sua experiência na Venezuela, o que você tem a dizer desse momento em que o Brasil passa?

Carlos: Eu acho que vocês estão em um momento de definição para decidir o rumo do seu país. Vocês têm uma oportunidade de ouro para construir o país que querem. São os cidadãos que decidem o futuro de um país, e não seus líderes.

 

GDM: Quais são os seus sonhos para a Venezuela?

Carlos: Meu sonho para a Venezuela é ver meu país recuperado dessa crise. Vendo uma Venezuela onde não há escassez, onde há trabalho e a livre concorrência, o que pode incentivar a estabilidade econômica. Onde a educação tem um papel importante na sociedade e onde você se sinta seguro. Ver as instituições operando e funcionando como a lei os define. Eu sonho por uma Venezuela onde amigos e familiares não lutam por uma postura política.

Eu sonho com uma Venezuela que mais uma vez venha dar o exemplo e ser referência para toda a América Latina. Onde venezuelanos regressem de todos os países de onde estão agora e comecem a trabalhar para mover o país para a frente. Eu até gostaria de ver o meu país sediar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos no futuro.

 

GDM: E tem algum recado que queira mandar aos leitores do Grupo Domingos Martins? Alguma mensagem?

Carlos: Se você é jovem e você está lendo isso, eu quero te dizer que é importante se envolver nas decisões que irão moldar o seu país. Em poucos anos, seremos a geração que vai ser a tomada de decisões em todo o mundo, e é muito importante começarmos a fazer isso agora. Torne-se consciente do que está ao seu redor, e tentar melhorar o seu ambiente para todos.

Infelizmente, o meu país agora é usado como uma referência de como não se gerir um país. Eu não quero esta situação a ninguém. É difícil ver a sua família passar por dificuldades, e mesmo que você tem um emprego, não ser capaz de ajudar tanto quanto deseja. Como venezuelano, cometemos um erro e estamos pagando por ele. Um presidente, muito além de carisma e personalidade, deve ter um plano para trazer o país para o crescimento. Não só o país, mas para todos os seus habitantes. Deve promover o trabalho e auto-aperfeiçoamento de cada um dos seus cidadãos, e não incentivar a preguiça e ociosidade.

Muitas famílias foram separadas por esta crise, indo para outros países buscando um futuro melhor, enquanto aqueles que governam a Venezuela não sofrem a crise. Eles se tornaram aquilo que mais criticavam. Eles formaram a sua própria classe burguesa, e se autodenominam socialistas.

Obrigado por ler as minhas palavras, e espero que isso te faça pensar um pouco.

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Carlos Jesús Mendoza Rodriguez

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