GDM entrevista Cláudio Manoel: O Estado padrinho não só perpetua o atraso, ele também escraviza

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O humor brasileiro sempre nos rendeu, além de muitas risadas, diversas personalidades icônicas e inesquecíveis. Sejam pelas suas personalidades excêntricas ou por serem grandes formadores de opiniões. Com Cláudio Manoel não é diferente.

Baiano de Salvador, nascido em pleno natal de 1958, o ator e roteirista de “Casseta e Planeta” surpreendeu a internet neste ano. Em seu perfil em uma rede social, fez diversas menções a escritores famosos por defenderem o liberalismo, escrevendo críticas sobre governos e suas medidas, gerando muita curiosidade de seus seguidores. Nesta entrevista, Cláudio conta um pouco de sua história, a forma como pensa sobre liberalismo, suas ambições e sonhos para o futuro do país. Confira:

 

GDM: Claudio, talvez por as pessoas te conhecerem mais pelo seu trabalho como ator, principalmente no programa Casseta e Planeta, seu posicionamento libertário pode ter causado uma certa surpresa. Inclusive, em um de seus posts no Facebook, você diz ter esse posicionamento “desde criancinha”. Quando realmente você se viu como um libertário? 

Cláudio: O “desde criancinha” é metafórico, na verdade fui chegando no “lado liberal da força”, aos poucos, a partir da ideia da própria “liberdade”. Minha infância e juventude foram passadas, basicamente, no período da ditadura militar. Embora não tenha sofrido nenhuma das suas brutalidades mais diretas, estive imerso no ambiente do autoritarismo institucional, que se manifestava do medo (real) do “informante”, passando pela censura, pelo isolamento do restante do planeta e muito mais. Esse “caldo” acabou me causando uma forte repulsa aos modelos autoritários, do tal “governo forte”, etc. Foi minha ojeriza à ditadura que me levou a uma natural aversão ao papel desempenhado pelo Estado, em nossas latitudes, e a uma consequente empatia com a democracia e as liberdades individuais. Sempre gostei muito de ler e, rapidamente, pude ver e saber que, para mim, não seria possível possuir nenhuma “ditadura de afeição”. Quando tomei contato com o que era a real do “projeto socialista”, da vida nos países da “Cortina”, dos relatos dos dissidentes soviéticos e cubanos, o distanciamento foi mais que natural, foi obrigatório.  Por tudo que a história já mostrou, denunciou, nos horrorizou, estranho mesmo é quem não se afastou ainda dos ideais coletivistas, “revolucionários” ou de “classe” e não o contrário.

GDM: Durante a ditadura militar, a juventude era praticamente homogênea na maneira de enxergar o estado e a sociedade. Como foi sua experiência ideológica nessa época? 

Cláudio: A homogeneidade se dava na busca e na escolha de um modelo revolucionário/autoritário pra “chamar de seu”. Todos, da extrema esquerda ao extremo oposto, queriam (ou lutavam por) algum tipo de autoritarismo. Eram pouquíssimos os que desejavam, realmente, liberdade de expressão, pluripartidarismo, democracia representativa, livre mercado, etc. E esses poucos eram mal vistos pelos “dois lados”. Os “heróis da luta pela democracia” foram Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, FHC e poucos outros e não os que promoveram aventuras militarescas brancaleônicas que, no caso da sua improbabilíssima vitória, iriam implantar a versão brazuca do horror socialista da predileção de cada um, na época. Da Albânia à China, de Cuba ao Cambodja, esses eram os “modelos” a seguir.  Democracia e livre mercado eram desejos de quase ninguém. Nessa atmosfera, acho o que me levou pra longe da esfera de atração autoritária, foi a necessidade da “liberdade comportamental”. Precisava falar o que quisesse, pensar do jeito que quisesse, fazer a piada que quisesse, ler o livro e ouvir a música que escolhesse. Nada disso era possível nem na ditadura militar, nem nas “utopias” dos que a ela se opunham. Por auto preservação e para procurar lugares e pessoas mais divertidas me afastei dos “opostos” que adoram o mesmo “Estado forte”, odeiam o individualismo, anseiam pelo “guia genial”, só aceitam um único partido, idolatram o “povo”, a “ação” e o nacional-desenvolvimentismo. Ou seja, a óbvia similaridade entre fascistas e comunistas/socialistas. Só eles é que não veem. E como são faço parte “deles”, fica muito fácil enxergar.

GDM: O estatismo, a corrupção e a política populista, sempre presentes na história do Brasil, te ajudaram de certa forma a desenvolver esse pensamento e essa opinião acerca do governo? Ou você sempre foi muito crítico no que tange a autoridade?

Cláudio: Sempre desconfiei da autoridade imposta, do “quem manda aqui sou eu”. Não simpatizo nem com messiânicos, nem com carismáticos. Acho que pouca coisa matou mais que “utopia” e muitas outras poucas provocam mais queda de qualidade de vida, a médio prazo, que “populismo”. Quem necessita, ou tolera, que a aritmética seja violentada, fabricando “boas notícias” através de falsificações demagógicas, contabilidades criativas, novas matrizes, etc, tem apenas em mente sua própria agenda oportunista e acabará, por consequência, sempre causando mais pobreza.

Paralelamente a isso, temos uma luta emergencial contra a casta que atende pelo nome de “setor público”. Essa aristocracia escravocrata, que através de mecanismos cínicos e tradicionais, geralmente, disfarçados com o rótulo mais palatável de “direitos adquiridos”, vive do suor alheio, concentrando grande parte da riqueza nacional nas “próprias mãos”, se auto concedendo infindáveis e escandalosas benesses e entregando de volta só ineficiência, desperdícios e/ou corrupção.

GDM: Em sua opinião, o que faltou (ou sobrou) para o brasileiro desenvolver um pensamento mais crítico a um estado centralizador e controlador?

Cláudio: Educação básica, média e superior de qualidade por muito, muito tempo, para todo sempre e além.  Falta também entender/adotar o conceito de “qualidade”. Exigir qualidade não é “frescura”, é necessidade. Estamos ficando cada vez mais para trás nos rankings de qualidade/produtividade até na América do Sul. O estado padrinho/painho/patrão não só perpetua o atraso, a ignorância, a barbárie,  por ser incapaz e interessado, unicamente, em se retroalimentar, ele escraviza, literalmente, os seus súditos/servos/escravos. Temos uma carga tributária escandinava, com serviços públicos de Uganda.  Sustentamos uma casta imensa, inútil e egoísta. Pagamos pensões para “filhas solteiras”, férias desproporcionais para categorias de felizardos, carros oficiais, foros privilegiados, subsídios camaradas, aposentadorias especiais, temos o judiciário mais caro do mundo e o legislativo idem, mas o brasileiro continua sendo o cara que odeia político e clama por mais Estado. Somos o país, onde a maioria da população tem o “sonho de ser funcionário público”, mas o serviço prestado por esses “sonhadores” é um pesadelo. Vá explicar? Sei lá, deve ser alguma coisa que colocaram na água.

GDM: O momento em que nosso país vive hoje é um tanto quanto delicado. Nervos à flor da pele, extremismos e muita intolerância quando o assunto é política. Você acredita ser esse um momento favorável para o crescimento da filosofia libertária?

Cláudio: Eu acho que, mais uma vez, o Leviatã mostra o monstro grotesco e absurdo que pode ser. Não temos um Estado, temos um case. Quem quiser que não veja, que misturar política econômica com estratégia eleitoral, produzir “narrativas” até na macroeconomia, que “gerir” a “coisa pública” de maneira mafiosa, cínica e demagógica, traz consequências gravíssimas e aumenta a pobreza e os problemas. Irresponsabilidade fiscal desemprega, quebra, mata. É a vida das pessoas e, principalmente, das pessoas mais pobres que é afetada pelos descalabros governamentais. O momento pode ser propício e didático para começarmos a tentar ganhar a “guerra cultural”, mostrando o quanto mentiras contábeis, farras tarifárias e demais “esculachos” gerenciais trazem consequências gravíssimas. Mas o populismo seduz, vimos isso muito recentemente para acharmos que o “pior já passou”. Por isso é que não se pode dar trégua aos falsos profetas, eles, mais cedo ou mais tarde, fazem todos pagar preços bem altos.

 

GDM: O que pra você é necessário ser feito para que o Brasil saia dessa situação de estagnação econômica? 

Cláudio: Reformar tudo que der, privatizar tudo que der, facilitar a vida de quem trabalha e produz o máximo que der. Qualquer coisa é melhor do que nada. Se não se consegue fazer tudo, que se faça alguma coisa. Conseguir algum caminho para a questão das previdências (principalmente, eliminando a escandalosa diferenciação entre as aposentadorias do setor público e os da vida real) e começar a inadiável reforma pelo fim dos privilégios. As incontáveis imoralidades que permitem os inacreditáveis montantes de recursos que são desviados “legalmente”, através dos privilégios descabidos, disfarçados de direitos adquiridos. Tudo isso, além de sinalizar uma nova maneira de encarar a gestão do gasto público, são imperativos morais.

GDM: Muito se fala no dever do estado “ser ou não ser”, dos políticos fazerem “isso ou aquilo”, mas pouco se fala nos deveres individuais. Pra você, faltam mais atitudes libertárias,  um agir, dos liberais? 

Cláudio: Existe primeiro uma tremenda dificuldade de se definir e, por consequência entender, o que são os diversos “liberalismos”.  Bill Clinton é um liberal para a esquerda brasileira e um esquerdista para os liberais americanos. Quem é mais “conservador” para a nossa “opinião pública”: João Dória ou Stédile? Cheguei a ver liberais brasileiros “decepcionados” com a suposta oposição do Bolsonaro à PEC que limita os gastos públicos, como se a postura “nacional-desenvolvimentista”, típica do “pensamento militar” brasileiro e clara no polêmico deputado, não fosse suficientemente estatizante para já distanciá-lo do liberalismo.

Por outro lado, essa clara construção/definição acadêmica é mais natural para as ideias socialistas que nasceram com pais/autores e departamentos de ciências humanas bem conhecidos. Acho que é preciso sair da defensiva e evitar jogar o jogo do adversário. Quem faz oposição aos “ideais socialistas”, não é o liberalismo, nem o capitalismo, é a vida real. Se a esquerda resolveu “fechar questão” na defesa do estado protagonista (e, por consequência, agigantado) e das corporações que parasitam o fruto do trabalho alheio, que paguem esse ônus e sejam desmascaradas, expondo suas falsas bondades. A guerra é diária e, provavelmente, eterna, mas não resta outra saída. A luta da liberdade é a que mais vale ser lutada. Defender com todas as forças o produto do próprio trabalho honrado, das mãos de oportunistas e preguiçosos é dever, ou deveria ser, obrigação de todos os que não são otários.

GDM: O meio artístico tem entrado muito em evidência quando o assunto é política. Atores assumindo posicionamento ideológico, defendendo político A e B, Lei Rouanet, etc. Como você enxerga esse tipo de comportamento no ponto de vista artístico?

Cláudio: Eu simpatizo tão pouco com o conceito de “luta de classes”, que faço questão de me sentir não pertencente a nenhuma. Eu não acho que ser artista é diferente de que ser dentista, ou engenheiro, ou contador. A chamada “classe cultural” também não se distingue nem por uma base/formação cultural mais especial, ou, particularmente, sólida. Portanto, acho que não se deve superestimar opiniões. Tento fazer isso até com as minhas.

GDM: Pra você, o que é a “Cultura do Estado”?

Cláudio: Não sou nem tolo, nem adolescente o suficiente para ser “contra o Estado”. O inimigo para mim são os seus cultuadores, os que vivem do muito que os inúmeros instrumentos estatais despejam para os seus e apaniguados. No Brasil qualquer coisa que tenha a palavra “público(a)” ou não funciona, ou é vergonhosa, ou é desnecessária, ou é corrupta, ou é escandalosa, ou kafkaniana ou tudo isso junto. Lutar contra a “cultura do estado”, para mim é uma luta abolicionista, contra os escravagistas que vivem (muitíssimos nababescamente) do que outros produzem e não podem muitas vezes melhorar a própria vida, porque tem boa parte da sua renda surrupiada. Pagamos muito, não recebemos nada e temos que comprar, de novo, para ter algo.

Nada funciona, tudo é cobrado. Se isso não é urgente. O que é?

GDM: Imposto é roubo?

Cláudio: No Brasil é o maior dos assaltos. Qualquer grande assaltante, comparado com os “nossos” governos”, são pequenos meliantes. O estado é o maior dos nossos bandidos, é só ver o espaço que ocupa nas “páginas policiais”. Ele surrupia, não entrega o que é devido e distribui só aos brothers. Se o estado fosse “pessoa física” já estaria em cana.

GDM: Quais são seus pensadores liberais favoritos e como chegou até eles?

Cláudio: Fora de ordem e de critério (muitos nem são “liberais”): Roberto Campos, Nelson Rodrigues, Churchill, Gilberto Freyre, Roger Scruton, Paulo Francis, Theodore Dalrymple, Albert Camus, Olavo de Carvalho, Milton Friedman, Raymond AronKarl Popper, Mises e dezenas de títulos publicados sobre a debacle do “experimento socialista” (se for pra escolher um: “O passado de uma Ilusão”, De François Furet). Mas, na verdade, atualmente, leio muito mais “ciência para leigos”, principalmente, o que se refere à psicologia evolutiva, neurociência, etc. Sem deixar de citar o Millôr, Ivan Lessa e Philip Roth. Não por serem escritores liberais, propriamente ditos, mas por me inspirarem a liberdade. Como cheguei a eles? Através daquele caminho tão bonito, quanto tortuoso, chamado “vida”.

GDM: Algum recado especial para os nossos leitores?

Cláudio: Procurem mais pelas perguntas que pelas respostas. É mais divertido.

 

Cláudio estará em Vitória no próximo dia 21/11 para o Fórum Liberdade e Democracia do Instituto Líderes do Amanhã, saiba mais.

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One Response to “

  • O Estado escraviza sim. Isso é verdade.
    Mas não é de agora é sim desde de instauração da República que coincidentemente é contemporânea a abolição estatal da escravidão.
    O Estado sempre foi privatizado servindo interesses econômicos e mantenedores de privilégios a classes que a grande massa não conhece. Esses sim são os inimigos da pátria. Sabotam a população de tudo que é maneira promovendo capatazes para se fazer de bom moço (PT, Psol, Pcdo B) mas o problema é estrutural. Enquanto a classe conservadora tiver homens como o entrevistado defendendo que eles continuem com privilégios essa escravidão contínua.
    É preciso aprofundar o discurso e sai dessas reverberações de mídias sociais. Aliás, a mídia sim é o instrumento chave dessa sabotagem, quando dar valor social as pessoas. Incitar pessoas que as vezes não tem o que comer a desejar e tomar como meta de vida bens de consumo que o próprio sistema a priva de ter. A mídia é um grande veículo que promove aos seus destinatários valores de sentido da vida e eles sabem disso é agem no seu inconsciente.
    Mas enfim, ainda sim é melhor um liberal do que um conservador fascista.
    Boa entrevista!

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