Freud: “um liberal da velha escola”

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Sempre quando falamos de Freud (1856-1939) e de sua construção teórica, a Psicanálise, fantasiamos com uma série de caricaturas. A proposta deste texto é desmistificar alguns mitos e demonstrar que o vienense era um liberal.

Os séculos XIX e XX foram extremamente ricos os contextos histórico, social, econômico e político, em especial, no antigo império Austríaco.

Durante a primeira metade do século XIX, apesar de haver conflitos internos, o império manteve-se distante dos grandes conflitos e revoluções, como a francesa e a industrial, que rondou a Europa. Portanto, ideias republicanas e de livre comércio ainda não eram amplamente discutidas e ainda era preservado, em grande parte do território, o modelo feudal.

Os judeus que viviam dispersos em diversos países do mundo – a famosa diáspora –, em especial na Europa, não eram muito bem vistos. Seja lá qual país fosse, o antissemitismo – movimento de exclusão de judeus – aparecia das mais diversas formas. Por parte dos cristãos fervorosos eram considerados “o arrogante e favorito autoeleito de Deus, assassino de Cristo”, para ideólogos o judeu era o “especulador inescrupuloso e cosmopolita corrosivo”.

Progressivamente as ideias de liberdade foram se amplificando e, somente na década de 1860, época em que Freud ainda era apenas uma criança, os liberais tomam corpo e ocupam importantes espaços na sociedade vienense chegando ao ponto de o ministério imperial ser apelidado de “bürgerministerium”, algo como “ministério burguês” ou “ministério da classe média”. A liderança de pessoas inclinadas ao pensamento liberal proporcionou importantes avanços, tais como: “o governo transferiu o controle da educação e do casamento para autoridades seculares, abriu caminho para casamentos entre pessoas de credos diversos e introduziu um código penal humanitário”. A partir desses avanços aliado a uma desburocratização da economia, o período tardio de influência do liberalismo protagonizou um enorme crescimento industrial, causando transformações arquitetônicas e urbanísticas em várias cidades, especialmente em Viena.

Antes limitados por diversas restrições sociais, agora os judeus desfrutavam de praticamente todos os direitos dos demais austríacos, algo inédito, inclusive entre outras nações, o que trouxe como consequência uma grande imigração judia em Viena. Se enquanto Freud tinha um ano de idade (1857) a capital austríaca possuía em torno de 6 mil (2% da população) judeus; dez anos depois sintetizavam cerca de 40 mil (6 %); em 1880, ano em que Freud ainda estudava medicina na faculdade de Viena, os judeus chegaram a somar para mais de 72 mil pessoas, 10% da população. Judeus eram donos de boa parte dos comércios, das indústrias e dos bancos austríacos; cursos conceituados da época, como Medicina e Direito, grande parte eram cursados por judeus e grandes nomes da intelectualidade austríaca eram de origem judia.

Diante desse contexto de grandes conquistas e possibilidades, era de se esperar que a maioria das famílias judias tivessem um pensamento inclinado ao liberalismo e que votassem em candidatos liberais, como foi o caso de Freud. Em sua juventude, lia diariamente o único jornal liberal da época, o “Neue Freie Presse”, hábito que levou até seus últimos dias de vida. O jornal, de notoriedade internacional, chegou, em 1883, diante de uma manifestação antissemita, a lembrar seus leitores que “o primeiro dogma do liberalismo é que os cidadãos de todos os credos gozam de direitos iguais”.

A adesão dos judeus pelo liberalismo e a sua leitura diária de um jornal liberal o alimentou e o influenciou, mesmo às vezes sem saber ou não querendo se influenciar pelo liberalismo. Vivendo em época de grande produção intelectual coletivista, Freud sempre optou por uma análise centrada no indivíduo para estudar o homem e seus processos psíquicos, não concordava com o comunismo russo e combateu influências socialistas e marxistas trazidas por psicanalistas.

Todos esses acontecimentos fizeram com que o próprio pai da Psicanálise afirmasse em carta endereçada ao romancista Arnold Zweig, em 1930, a dizer que, apesar de algumas insatisfações políticas e econômicas, continua sendo “um liberal da velha escola”: provavelmente a velha escola seja daqueles liberais que ajudaram a construir a Viena que recordava, já que se encontrava em Londres, fugindo da perseguição alemã em seu país de origem.

A historiadora francesa Elizabeth Roudinesco, uma das maiores autoridades atuais na história da psicanálise, apesar de aderir ao pensamento progressista, admite a preferência de Freud pelo liberalismo, chegando a defini-lo como um “conservador rebelde”:

Sem dúvida é um conservador rebelde. Ele entrou em rebelião contra os modos de pensar majoritários de sua época. Ele é um liberal conservador, que induziu uma revolução do íntimo. É contemporâneo do socialismo, do comunismo, do feminismo, de todos os movimentos de emancipação. Mas sua característica é que retorne sempre ao Antigo, algo muito típico também de Viena e da cultura alemã. […] Ele tem este aspecto politicamente conservador, vota liberal, […] não acredita que uma revolução social do tipo marxista vai dar certo. Ele é contemporâneo da Revolução Russa. Não é a favor das convulsões republicanas francesas. Ele era pela emancipação das mulheres, e contra a supressão das instituições. Ele gosta muito de Paris, mas não é a favor de revoluções do tipo francês. O modelo para ele é Londres, o modelo econômico liberal inglês, e a cultura do Sul, a Itália e a Antiguidade romana; e mais longe, a grega, e mais longe ainda, o Egito.

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  • Acredito que seja natural que qualquer pessoa em contato com a psicologia tenda para o lado liberal, podemos afirmar que a felicidade é libertária! É consenso que o ser humano não pode ser feliz a todo tempo, pois está em conflito o tempo todo em sua psique. As regras impostas vão limitar e minar o ser humano, porém numa sociedade com redução do Estado ou extinção do mesmo, esse conflito diminui e podemos chegar mais perto da tão sublime alegria perene!

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