Desmistificando Che Guevara

Por Luan Sperandio

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O texto a seguir foi feito a pedido da organização Advogados Pela Liberdade, que criaram uma campanha para mostrar quem é o verdadeiro Che Guevara, buscando alterar o nome de bens públicos que o homenageiam.

 

No dia seguinte a denúncia ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, anunciada pelo Procurador do Ministério Público Federal, Deltan Dallagnol, repercutiu bastante uma frase que lhe foi atribuída: “não temos provas, mas temos convicção”. Muitas críticas e memes foram feitos para ridicularizá-lo. Felizmente, podemos ver milhares de pessoas dispostas a defender uma das premissas mais caras ao Estado Democrático de Direito, o princípio do contraditório e da ampla defesa. Mas a frase foi falsamente atribuída a Deltan. No entanto, muitas das pessoas que se manifestaram endeusam um argentino que, de fato, disse essa absurda frase.

Em janeiro de 1959 Ernesto Guevara de la Serna, o “Che” Guevara, foi nomeado comandante do presídio do Forte de La Cabanã e chefe dos Tribunais Revolucionários que aconteciam ali. Entre os julgados estavam revolucionários divergentes, adversários políticos e até mesmo familiares de refugiados de Cuba. Para decidir a vida de centenas de pessoas, Che nomeou como Juiz Orlando Borrego, um rapaz de 23 anos sem qualquer formação jurídica. Seu auxiliar, José Vilasuso, advogado recém formado em direito, escreveu sobre aqueles dias:

“Os fatos eram julgados sem nenhuma consideração aos princípios de justiça”[1].

Ele (Che) dava reprimendas em particular e em público, chamando a atenção de todos: “Não demorem com esses julgamentos. Isso é uma revolução: provas são secundárias. Temos de agir por convicção.[2]

 

É comum entre a cultura latino-americana cultuar heróis perversos. Isso não é diferente em relação a Che Guevara. Ele é símbolo de paz entre os povos, tolerância, defesa dos direitos dos mais frágeis e dos trabalhadores. Não importam as bizarrices econômicas, tampouco o desrespeito aos direitos humanos, o que importa é o carisma e o rosto fotogênico para estampar camisas de milhares de ditos admiradores. Mas muito dessa devoção se deve por desconhecimento do que foi o verdadeiro Che Guevara, e é isso que se propõe o presente texto.

A Revolução Cubana se opôs a ditadura de Fulgêncio Batista, que, vale dizer, foi acusado de ser comunista por Fidel Castro, devido as reformas intervencionistas que promoveu na década de 1930 após a Revolta dos Sargentos[3]. O movimento redelde contava com diversos políticos moderados e até mesmo anticomunistas. Não foi o idealismo utópico de Marx e Engels que levou Fidel Castro a dar o golpe em Fulgêncio Batista: somente após a tomada pelo poder que o ex-ditador percebeu que o comunistmo era um mecanismo eficaz de controlar o poder e eliminar adversários[4].

Assim, Che Guevara, auxiliou os Castro a tomar o poder, a despeito de Fidel se declarar opositor aos comunistas, conforme entrevista concedida ao New York Times, em abril de 1959.

Após a derrota de Fulgêncio Batista, a sociedade cubana festejou: estava ansiosa para construir uma democracia. Mas a esperança da volta dos partidos e das eleições duraram tão somente 6 meses, quando Castro e Che levaram a revolução para uma ditadura comunista, uma verdadeira “contrarrevolução”. Os cubanos que apoiaram o movimento rebelde em busca de liberdade foram iludidos.

Dentro do novo governo cubano, o argentino perseguiu jovens, músicos e artistas, pois acreditava que “para construir o comunismo, tem de se fazer o homem novo[5], e os intelectuais cubanos não estavam nos planos de construção desse novo homem. Ao olhar de Che Guevara, o indivíduo era um fim em si mesmo, apenas uma ferramenta para a revolução. Assim, matar ou sacrificar pessoas era racional e correto. Conforme revelam seus diários e declarações, ele tinha uma crença de que a natureza humana é maleável, podendo ser ensinado diferentes comportamentos, bastando para tanto educar-lhe para o espírito revolucionário. Portanto, para ele, o socialismo tinha o poder de “curar comportamentos e doenças sociais”.

Segundo o militante, “os jovens deveriam-se deixar de lado interesses individuais e colocar-se à disposição do governo”. Logo, todos os que não se encaixassem na moldura do idealizado homem novo foram perseguidos pelo regime cubano, principalmente gays (sendo Che um dos mais convictos líderes homofóbicos da revolução[6]), católicos, testemunhas de Jeová, alcoólatras, sarcedotes do candomblé cubano e posteriormente portadores de HIV. Uma verdadeira cama de Procusto[7]. Os jovens deveriam “pensar como massa, e estarem à disposição dos dirigentes supremos”[8]. Che se encaixava exatamente nos dizeres de Nelson Rodrigues: “amar a humanidade é fácil; difícil é amar o próximo”.

Tendo isso em mente, o argentino foi responsável pela criação em 1960 do primeiro campo de trabalho forçado de Cuba, em Guanahacabibes. Buscava reeducar pessoas, consideradas pelo regime como imorais, por meio do trabalho. A estrutrura serviu de modelo para as Unidades Militares de Ayuda a la Producción (Umaps), que forçaram 30 mil pessoas a trabalharem para o regime cubano.

O caso foi denunciado em 1967 na Comissão Interamericana de Direitos Humanos:

“Os jovens são recrutados à força por simples disposição da política, sem que se faça nenhum julgamento, nem seja permitido direito de defesa. […] Em muitas ocasiões os familiares só são notificados semanas ou meses depois da detenção. São obrigados a trabalhar gratuitamente na granja estatal por mais de 8 horas diárias e recebem um tratamento igual ao que se dá em Cuba aos presos políticos. […] Esse sistema cumpre dois objetivos: a) facilitar a mão de obra gratuita do Estado. B) Castigar os jovens que se negam a participar das organizações comunistas.”

Diante desses fatos, não é possível admirar Che Guevara como defensor das liberdades individuais.

Já quem admira Che por ele simbolizar a paz, deveria conhecer melhor o papel do argentino na Crise dos Mísseis de 1962. Nem Moscou e nem Washington consideravam uma boa ideia iniciar uma guerra nuclear, mas Che Guevara e o governo de Havana discordavam deles. O recuo do Kremlin, com a consequente retirada dos mísseis da ilha irritou os líderes cubanos ao ponto de Che declarar em entrevista ao London Daily Worker que o governo cubano estava disposto a utilizar todos os mísseis, caso tivessem ficado no país. Certamente, os Estados Unidos revidariam o ataque, provocando um massacre nuclear. Mas Che não parecia se importar com o povo cubano, afinal, nos dizeres dele “Cuba é o exemplo tremendo de um povo disposto ao autossacrifício nuclear, para que as cinzas sirvam de alicerce para uma nova sociedade[9]”.

Há relatos em seu diário pessoal que mostram que durante o Golpe de Estado na Guatemala, que derrubou Jacobo Arbenz em 1954, Che se portou de maneira totalmente indiferente. Assim, pouco antes de envolver-se na luta contra Fulgêncio Batista, o argentino sequer era um idealista, como afirma Enrique Ros, autor de “Guevara: mito y realidad”.

Outro interessante relato é de Miguel Sanchez, recrutado por Fidel para ser instrutor militar dos cubanos que treinavam no México, entre eles Ernesto Guevara. Ele conta que o guerrilheiro menosprezava cubanos, índios, mexicanos e negros. “Ele era racista, víamos isso [principalmente] em seu contato com (o colega militar) Juan Almeida Bosques”.

Outra interessante história sobre o guerrilheiro ocorreu em 24 de junho de 1956, um grupo de expedicionários foi capturado pela polícia mexicana, junto com Guevara. Com medo de ser deportado para a Argentina, o símbolo de coragem de muitas pessoas cooperou com as autoridades delatando seus companheiros e indicando que as armas de seu grupo estavam no rancho de Santa Rosa de Chalco, prejudicando, e muito, a luta da guerrilha a partir daí.

Vale dizer ainda que ele era chefe de uma das mais importantes colunas guerrilheiras na Campanha dos rebeldes em Cuba. Mas, sob seu comando,  “fuzilamentos viraram rotina […] muitos sem propósito estratégico, o que fazia a maior parte da tropa ser contra [suas decisões]“. Por exemplo: Roberto Bismarck, capitão do exército rebelde, declarou que em uma operação militar foram presas algumas pessoas por supostamente colaborarem com o governo de Batista, mas nao havia provas disso. Assim, Che Guevara, de forma arbitrária, disse: “(por serem colaboradores de uma ditadura) devem ser castigadas com a morte, mesmo sem nenhum julgamento”. Che não apenas disse que elas tinham de morrer, como matou dois deles, para repulsa de parcela da tropa.

O próprio Che Guevara pregava a necessidade das execuções, tanto em seu diário, ao dar detalhes delas, quanto em público. O melhor exemplo foi de quando participou da Conferência das Nações Unidas em 1964 e confirmou que sim, temos fuzilado. Fuzilamos e seguiremos fazendo isso enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta à morte.” Ao todo, Che Guevara é envolvido em pelo menos 144 mortes, segundo o Projeto Verdade e Memória, da organização Arquivo Cuba. Essa relativização de Direitos Humanos para alguns indivíduos por parte de Che Guevara é típica de marxistas, que argumentam o caráter subjetivo dos Direitos Humanos.

Há ainda o mito de que Che Guevara era um bom guerrilheiro tecnicamente. Entretanto, vários companheiros afirmavam que ele não estava capacitado militarmente falando. Um deles, Huber Matos, ex-comantante do exercíto rebelde, foi taxativo: “no âmbito militar [ele] não sabia nada”, ao explicar que Che Guevara desconhecia o que era e como fazer uma “linha de fortificação”, um procedimento básico defensivo.

A despeito de sua incapacidade como militar, os rebeldes derrubaram a ditadura de Fulgêncio Batista. Após a revolução, Che Guevara passou a ocupar o cargo de presidente do Banco Nacional e, posteriormente, ministro da Indústria de Cuba. No entanto, ele não se mostraria mais habilidoso como burocrata que demonstrou como guerrilheiro..

Em vez de propor maiores ganhos salariais para os trabalhadores mais produtivos, se opunha a incentivos materiais. Assim, para incentivar os cubanos a trabalharem mais, propunha o controle, a punição e o castigo pelo Estado cubano. Assim, acabou com a possibilidade de ter ganho individual por maior produtividade, bem como com os direitos de propriedade.

Ele defendia que “o governo precisa castigar aqueles trabalhadores que não cumprem seu dever. Aqueles que se mostram mais preguiçosos precisam passar por uma reeducação ideológica.” Expôs ainda na Nota sobre o Manual de Economia Política da Academia de Ciências da URSS que “o não cumprimento da norma significa o não cumprimento do dever social. […] “O controle administrativo deve ser o mesmo que o controle ideológico”.

Como responsável pela Reforma Agrária, Che buscou diversificar a economia cubana, diminuindo a área cultivada de cana-de-açúçar, resultando no colapso da indústria de açúcar sem o crescimento de outras atividades. Ademais, como consequência de seus planos econômicos, em 1961 e 1962 metade da produção de frutas e verduras apodreceu por não haver trabalhadores no momento adequado para a colheita. Faltava arroz, feijão, ovos, leite, óleo e todos os tipos de carne, menos de 2 anos após a revolução. Como solução para combater a escassez de alimentos, implementou o carnê de racionamento, tão odiado pela população cubana.

Como ministro da Indústria, Che determinou uma ambiciosa meta de crescimento de Cuba de 15% ao ano e previu a autossuficiência do país em alimentos e matérias-primas agrícolas, com o aumento do consumo de alimentos em 12% ao ano. Além disso, decidiu investir na industrialização, importando uma obsoleta fábrica da Checoslováquia para a produção de geladeiras e cafeteiras, bem como ferramentas, sapatos e lápis. No entanto, devido ao colapso da indústria de açúcar, o país não tinha capital para financiar sua industrialização. A escassez atingiu itens industrializados básicos, como sabão, detergente, sapatos e pasta de dente.

A despeito dos líderes cubanos responsabilizarem o embargo norte-americano por seus fracassos, o próprio Che Guevara desejou o embargo, segundo Humberto Fontova, autor de “O verdadeiro Che Guevara”. Em diversas passagens de seus textos o guerrilheiro demonstra que não desejava manter relações com os Estados Unidos[10].

Não demorou para os otimistas planos de Che Guevara darem lugar a explicações e pedidos de paciência aos cubanos. Em 1961 ele se mostra perdido na crença no planejamento central que, como marxista, defendia anteriormente[11].

O ineficiente sistema ganhou sobrevida com a ajuda econômica e a concessão de crédito pela União Soviética. A criticada dependência econômica de Cuba com os Estados Unidos deu lugar para a dependência econômica com o Kremlin. Isolado no governo após vários fracassos na área econômica, passou a viajar mais, e em 1965 foi para a África auxiliar em outra revolução comunista.

Entre as consequências da política econômica iniciada por Che Guevara está a queda do consumo de alimentos por sua população. Na contramão do desenvolvimento social, de terceiro país no ranking da América Latina de consumo per capita de calorias, com 2.700 calorias em 1950, caiu para 2.300 calorias.

Para ter ideia da destrutividade da socialização dos meios de produção, a qual teve Che como defensor e um dos primeiros estruturadores, vale conhecer o estágio de desenvolvimento de Cuba, comparada a outros países da América Latina, antes da revolução. Alguns socialistas mais pragmáticos ainda defendem que “os fins justificam os meios”, mas os dados de Cuba não mostram avanço.

A conclusão é que o guerrilheiro marxista é um mito, que foi construído por décadas. O tempo, muitas vezes, santifica os homens. Mas, apesar do argentino simbolizar muita coisa, se você realmente preza pela paz, pelos direitos humanos, pela liberdade e pelo bem estar dos mais pobres, não pode defender Ernesto Che Guevara.

[1] MACHOVER, Jacobo, El rostro oculto del Che

[2] NARLOCH, Leandro, TEIXEIRA, Duda, Guia Politicamente Incorreto da America Latina, P. 57.

[3] Idem, P. 34

[4] Entrevista datada de 12 de maio de 2011 com Huber Matos,realizada para o livro Guia Politicamente Incorreto da América Latina.

[5] Che Guevara, Textos Políticos, Global, 2009, página 60.

[6] Emilio Bejel, Gay Cuban Nation, The University of Chicago Press, 2001, página 24. Vale salientar que em 1971 homossexuais foram proibidos de ocupar cargos públicos, a sodomia constou no Código Penal Cubano até 1979 e beijos homossexuais eram punidos com cadeia por atendado ao pudor até 1997.

[7] Na mitologia grega Procusto era um bandido que construiu uma cama de seu tamanho. Todos os viajantes que ele convidava para repousar tinham seus corpos ajustados ao tamanho da cama, seja cortando cabeça e membros inferiores, seja esticando seus corpos.

[8] Che Guevara, página 34.

[9] Jorge Castañeda, p. 305, Revista Verde Olivo.

[10] Che Guevara, Textos Políticos, páginas 51, 81 e 84.

[11] Jorge Castañeda, p. 289.

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