Histórias de Liberdade, com Renato Diniz

Livros, cursos e organizações para formação de líderes existem em grandes volumes. O termo “liderança” já é mais procurado em buscadores digitais do que “fome” ou “energia sustentável”.

Segundo a consultoria Ketchum, o mundo passa pela mais longa crise de liderança global em nossa história. Menos de 1 em cada 4 pessoas acredita que seus líderes tem um bom desempenho e apenas 1 em cada 5 acreditam que este quadro irá melhorar nos próximos anos.

Diante disso, o estudo, análise e formação de líderes é essencial. Para isso, entrevistamos dessa vez Renato Diniz, analista de liderança do Ideias Radicais.

Como foi o primeiro contato com o liberalismo/libertarianismo que você teve? 

“Minha história com liberalismo é bem engraçada. Porque eu sempre fui, desde que eu era  criança, eu cresci em uma família apolítica. Então os meus pais nunca foram envolvidos com política e eles inclusive assim, a regra lá em casa era que tudo todo político é bandido, ninguém presta, é tudo corrupto e por aí vai… Aquele pensamento bem fechados em relação à política. E eu sempre fui um cara muito técnico. Eu fiz o ensino médio e fui para engenharia, então meu foco sempre ciências. Nunca fui de estudar economia, nunca fui de estudar política e até́ noticiário era uma coisa que não tinha tanta atenção assim na minha vida e nem tanto foco. Era um cara de engenharia que queria empreender e é isso. E eu lembro muito bem que teve um período da minha vida, quando eu voltei do intercambio, eu ficava me questionando: será que existe alguma moral universal? Tinha uma coisa que me preocupava e era o seguinte: se eu tivesse nascido há 300 anos atrás, na época do brasil colonial, época que tinha escravo, será que eu seria escravocrata? Será que eu apoiaria a escravidão? E eu fiquei pensando, tem varias pessoas que cresceram com pais com escravos, lidando com escravos no dia a dia e o cara lá defendia isso. E eu pensava, será que eu seria esse tipo de pessoa? E eu fiquei me questionando muito se existia algum tipo de ética universal ou atemporal… E eu lembro que eu tinha algumas discussões com dois grandes amigos meus lá de recife, que são pessoas bem intelectuais, bem versadas em politica e economia e ai nessas conversas e diálogos que eu tinha com eles, eles me falavam: Renato, tu acredita nessa ideia aqui? E eu dizia: Acredito. O que você acha dessa outra ideia? E eu dizia: também acredito nessa ideia aqui! Ai um deles virou pra mim e falou: olha, Renato, o nome disso aí que tu defende é LIBERALISMO. E eu nunca tinha escutado esse termo na minha vida. Comecei a pesquisar, achei interessante e comecei a ler. Encontrei o site do Mises, fui lendo vários artigos do Mises e me apaixonei. E eu percebi que tudo que eu acreditava e queria compreender de moral e ética se encontrava dentro dos valores liberais. Isso foi em 2016, ou seja, foi o ano que eu devorei o site do Mises com os artigos, comecei a ler livros: as 6 lições (Mises), Economia em uma única lição (Hazlitt), O que o governo faz com seu dinheiro (Rothbart). Devorei livros e artigos e esse foi meu primeiro contato.”.

Qual foi o papel do Student for Liberty (SFL) na sua trajetória e por quais motivos teve interesse de participar?

“A história do Students for Liberty é bem legal! Eu estava nessa vibe de estudar liberalismo e queria aprender mais! E eu lembro que tinha uma conhecida minha que tinha me adicionado no facebook para falar de uma candidata que ela estava trabalhando e tudo mais… E aí ela compartilhou um post com: inscrições abertas para o Students for Liberty. Aí eu fui ler, entrei no site e achei interessante! Eu estava empolgado em estudar liberalismo e eu pensei que eu até poderia estudar sozinho mas também poderia entrar num ambiente e imergir numa organização onde eu vou poder estudar liberalismo com outras pessoas liberais que também estão interessadas em aprender. Então falei: vou entrar nesse negócio! Só que tinha um problema. Eu lembro que a inscrição para a vaga era para coordenador local, o grau mais baixo no SFL (Students for Liberty), você entra como voluntario e coordenador local. E na época, eu olhei e pensei: poxa. Coordenador local? Nunca coordenei nada… Eu era bem técnico e nunca tinha pensado em trabalhar com liderança e gestão. Então, quando vi aquele negócio pensei que não era pra mim. Não coordeno nada, nunca coordenei ninguém… Inclusive, na época eu fazia iniciação cientifica sobre resinas compostas, uma parada totalmente técnica. Falei não sei e fiquei com medo! Nisso tinha um período de inscrições de 15 dias e eu fui adiando e adiando e sempre que eu pensava falava que não ia rolar ser coordenador. E eu lembro até hoje que estava em churrasco na casa de um amigo meu (inclusive, o mesmo amigo que me apresentou o liberalismo), e eu falei: meu irmão, quer saber? Alguma coisa diz que eu tenho que me inscrever pra esse negócio! Ai quando eu fui ver tinha um formulário cheio de pergunta e tudo mais.  Peguei um uber, voltei pra casa correndo e comecei a responder as perguntas. Já tinha passado do horário de enviar, mas enviei mesmo assim e foi! Ai pronto. No outro dia o formulário foi aceito, fiz a entrevista e fui aceito para o students for liberty. E essa foi minha história com o SFL. Nunca tinha pensado em me tornar coordenador estadual, regional… Só queria estudar liberalismo com outras pessoas liberais.

Entrar para o SFL mudou diametralmente minha carreira profissional! Na minha cabeça eu ia trabalhar com engenharia, me formar, ser um cara técnico e aí quem sabe abrir uma empresa. E o SFL mudou minha vida, de forma impactante, de duas maneiras: a primeira foi minha visão politica do mundo, compreendo hoje a importância da política. E a segunda foi que tudo no quesito de gestão e liderança, essa parte de educação por assim dizer, foi tudo pelo students for liberty. Nada disso teria acontecido se não tivesse feito essa imersão dentro do SFL e começado a trabalhar com gestão de voluntários lá dentro.

A trajetória como gestor de grupos voluntários lhe ajudou no desenvolvimento das ideias liberais em sua vida? 

Trabalhando como gestor de voluntários e estudando gestão de voluntários, não posso dizer que , diretamente, o desenvolvimento das minhas ideias liberais foi mudado, mas quando comecei a estudar liderança, mudou! Nisso, eu já tinha sido contratado pelo ideias radicais para montar um curso de liderança. Então, comecei a estudar liderança e tentar criar essa conexão com o libertaria ismo e foi ai que eu tive o grande avanço e percebi como o libertaria ismo e liderança são assuntos interrelacionados. Na verdade, você consegue extrair, ver o libertarianismo com uma perspectiva de liderança. Libertarianismo é o individuo assumindo a responsabilidade de todos os eventos que acontecem na sua vida, seja saúde, educação… Em que o Estado não deve impedir a gente de assumir essa responsabilidade. Então, isso foi um grande avanço na minha visão liberal. Outro ponto interessante é que tem uma escola alemã de liberalismo, que é pouco falada, onde você vai encontrar o conceito do Wilhelm von Humboldt. Ele trabalha muito essa questão de que o ser humano tem o fim nele mesmo. Então o que seria liberdade para o ser humano? Seria ele buscar a melhora de si mesmo e sua libertação, seja intelectual ou física. Então, foi um ponto importante em entender como o desenvolvimento pessoal está intimamente relacionado com a liberdade. Para você assumir responsabilidades individuais, você tem que se desenvolver e se fortalecer como indivíduo. Por isso esse conceito do Humboldt, da escola alemã de liberalismo, é uma coisa que eu estou buscando investigar. 

Qual sua visão sobre a ascensão de grupos liberais que formam lideranças para atuar no cenário de sua cidade, estado e no nosso país? Acredita que estamos no caminho certo ou ainda muito distante do nosso objetivo?

“Eu acho que tem sido uma surpresa muito boa! Eu lembro que quando entrei para o Students for Liberty, uma das coisas que mais me motiva em trabalhar com o SFL, era o meu crescente medo de que estivéssemos vivendo apenas uma onda liberal. O ano era 2017 e eu pensava que estava massa, mas ao mesmo tempo: isso vai acabar. Como uma onda… e como toda onda passa, se agente não pegar essa oportunidade para sedimentar e solidificar o movimento liberal no Brasil, outra oportunidade como essa só daqui a 20 anos. E eu percebo que a gente conseguiu! Solidificamos instituições libertarias. Ainda tem muito a ser feito, mas conseguimos, minimamente, tornar algo fixo, algo perene, algo que não vai acabar nos próximos meses. E isso, em grande parte, se deve aos próprios grupos liberais que vão surgindo no país nos mais diferentes estados e nas demais cidades.  São eles que no fim do dia criam essa solidificação dos nossos valores e das nossas ideias. E vejo que tem sido muito positivo! Quase toda semana algum grupo me convida para dar alguma webinar/mentoria sobre liderança e gestão. Então, assim, ver o interesse desses grupos querendo melhorar em características técnicas, estruturas organizacionais, processos seletivos mostra um amadurecimento desses grupos! Acho que estamos no caminho certo sim. É exatamente esse caminho que temos que ir. É um processo lento e não tem como agilizar! Claro que, tentamos agilizar. Inclusive um dos meus trabalhos majoritários do Ideias Radicais é isso: desenvolver treinamentos para que as gestões de cada grupo fiquem mais perenes, técnicas e cada vez melhores. Entretanto, acho que ainda falta um bom caminho! Digo isso pelo motivo que, quando penso em capilaridade política, penso em diretórios municipais de partidos. Pensa assim, PMDB,PT ,PSDB… Esses partidos tem diretório municipal em todas as cidades. Então, pra gente ter um impacto, real mesmo, do liberalismo para competir com essa galera, temos que ter o equivalente também. Temos que ter grupos liberais, não só nas capitais, não só em capitais do interior, mas literalmente em todas as cidades brasileiras deve haver algum grupo liberal/libertário.  Falta ainda um bom caminho, mas como disse estamos no caminho certo e com um bom ritmo também! 

Entrevista realizada por Gabriel Pereira Suarez, membro do Grupo Domingos Martins.

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