A Praxeologia de Ludwig Von Mises e a Ciência Economica

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Caro leitor, peço de forma cordial para que se acomode bem antes de dar prosseguimento à leitura, caso esteja em um ônibus sentado, coloque seu fone de ouvido para abafar o som externo do ambiente; estando de repouso em casa, sugiro uma xícara saborosa de café para que se atente ainda mais ao texto; na hipótese de estar no trabalho, oriento efetuar a leitura somente durante o seu horário de almoço, assim poderá ler com calma e certificará um entendimento claro do que foi lido.

Ludwig Von Mises – que será tratado posteriormente apenas como Mises-, foi um importante membro da Escola Austríaca de Economia. Nascido em 1881, na cidade Lemberg, situada no antigo Império Austro-Húngaro, era filho de um famoso engenheiro civil, Arthur Edler von Mises e realizou seus estudos na famosa Escola Austríaca de Economia; aluno de Eugen Böhn von Bawerk – ou apenas Bohn-Bawerk -, não demorou para se destacar como seu principal e mais brilhante aprendiz. Mises se formou em 1906 e contribui de diversas formas para ciência econômica: apresentou o teorema regressivo da moeda, mostrou a impossibilidade do cálculo econômico sobre um planejamento central e, entre outros, contribuiu com o que será tratado aqui hoje, o método da ciência econômica: a praxeologia.

Mises acreditava que a ciência econômica era um ramo da ciência da ação humana –batizada por ele de praxeologia- e, portanto, não pode se submeter aos mesmos métodos de investigação das ciências naturais, i.e., suas proposições não são obtidas por experiência, são como a lógica, apriorística.

Para entender melhor o método de investigação Misesiano, devemos recorrer a epistemologia. Especificamente, devemos examinar a epistemologia Kantiana apresentada em seu livro “Crítica da Razão Pura”, que influenciaria nitidamente o pensamento de Mises. Para Kant, as proposições poderiam ser classificadas de duas formas: proposições analíticas ou proposições sintéticas, que por sua vez seriam obtidas de modo a priori ou posteriori.

As proposições analíticas são proposições a priori, ou seja, elas não necessitam de comprovação empírica, pois todo o conhecimento do objeto pode ser extraído do seu próprio significado.

Exemplo de proposição analítica a priori: um quadrado possui quadro lados.

Note que não é necessário verificar se um quadrado possui quatro lados, pois está implícito em seu significado.

Já as proposições sintéticas possuem informações sobre o objeto a qual não está implícito em seu significado, por isso é necessário a confirmação através da experiência, ou seja, de forma posteriori.

Exemplo de proposição sintática posteriori: a bola é azul.

Note que, para concluir que a bola é azul, eu preciso recorrer a um dos cinco sentidos – no caso, a visão -, não posso retirar essa informação de seu significado, tão menos de uma dedução lógica.

Para Mises, assim como para Kant, haviam proposições sintáticas que poderiam ser provadas de modo a priori, desde que a negação de tal levasse a uma contradição performativa.

Em 1946, sai a primeira edição do Ação Humana, livro onde Mises colocara toda a epistemologia e a base para a ciência econômica austríaca: a praxeologia.

Ele percebeu que, para entender o que leva os indivíduos a entrarem em trocas voluntárias, ele deveria, primeiramente, entender o que leva o ser humano a agir. Utilizando o apriorismo ele nos dá o que será o axioma base de toda a praxeologia, o axioma da ação.

Mises entende a ação como sendo, necessariamente, propositada. Nas palavras dele: “Ação humana é ação propositada. Também podemos dizer: ação é a vontade posta em funcionamento, transformada em força motriz; é procurar alcançar fins e objetivos; é a significativa resposta do ego aos estímulos e às condições do seu meio ambiente; é o ajustamento consciente do estado do universo que lhe determina a vida. Estas paráfrases podem esclarecer a definição dada e prevenir possíveis equívocos. Mas a própria definição é adequada e não precisa de complemento ou comentário”.

Foi então que Mises nos deu o seu primeiro insight: homem, ao agir, escolherá os meios mais eficientes para alcançar seu objetivo. Ao negar esse axioma, automaticamente o agente que o faz estará caindo em uma contradição performativa. Para isso ele terá de escolher meios, e escolherá o que julga mais eficiente, para alcançar seu objetivo (refutar o axioma).

Uma coisa que deve ser esclarecida é que, nem sempre, os indivíduos escolherão os meios mais utilitários para alcançar determinado fim, mas isso não refuta o axioma, pois é levado em consideração apenas o meio que o agente optou como mais viável no momento de sua escolha. Duas pessoas com objetivos idênticos podem optar por meios distintos, isso é totalmente subjetivo. Uma delas pode estar errada quanto a sua escolha, mas só descobrirá depois da ação; caso descubra antes, certamente irá escolher outro meio.

Isso nos leva a outro insight importante: o homem sempre agirá para sair de um estado de bem-estar para outro que julga superior.

Em seu livro Teoria e Historia, Mises mostra a importância do conhecimento teórico para investigação pratica – a análise histórica. Sem esse conhecimento prévio, a análise histórica pode nos levar a compreensões totalmente distantes da correta e a ligar fatos que não tenham causalidade alguma.

Para ilustrar isso, pense nos Estados Unidos da América, no século passado sua população vivia em uma situação relativamente mais pobre do que agora; também, no século passado, eles tinham uma carga tributária menor. Hoje eles possuem um padrão de vida mais elevado e, ao mesmo tempo, sofrem com uma carga tributária mais elevada. Sem o conhecimento teórico para análise da história, poderíamos concluir que a alta carga de imposto aumentara a qualidade de vida americana. Trata-se de um post hoc ergo propter hoc, falácia lógica que consiste na ideia de dois eventos que ocorram em sequência cronológica estão necessariamente interligados através de uma relação de causalidade. Sabem os que o padrão de vida americana não aumentou graças ao aumento de impostos, mas sim apesar dele.

Os axiomas e as leis econômicas obtidas por eles são de caráter universal e atemporal, isto é, eles valem em qualquer localidade e em qualquer espaço de tempo. A ação humana não pode ser limitada a gráficos e estatísticas, pois ela é imprevisível; o máximo que podemos fazer é dar palpites bem embasados. Por mais que exista persuasão ou incentivos, o indivíduo agirá de acordo com sua vontade, escolherá os meios de forma subjetiva, ele decidirá por último.

Ao leitor que aderiu ao meu pedido: você, de certa forma, foi persuadido a preparar uma xícara de café ou colocar os fones de ouvido e, por mais que eu tenha despertado sua vontade, você escolheu executá-la por acreditar que lhe traria bem-estar.

Ao leitor que não atendeu ao meu pedido: você, certamente, pôde perceber que, apesar de propagandas e todos os meios utilizados para persuadir o homem a agir de certa forma, ele, em última instancia, vai decidir de acordo com sua vontade. Ação é isto: A vontade posta em prática.


Daniel Gava é Coordenador Local do EPL no Espirito Santo, Estudante de Direito na Faculdade Pio XII e Empresário

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