A Grande Queda — Os incentivos por trás da crise de 2008

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Para analisarmos a relação do filme com a realidade, precisamos delinear o que foi feito antes, durante e após a crise ocorrida em 2008 nos EUA. Na época, a crescente taxa de inadimplência em empréstimos imobiliários chamou a atenção de alguns poucos investidores que, vislumbrando o bem-estar e rentabilidade de seus clientes, operaram para que os mesmos não sucumbissem com o eminente desastre econômico.

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Gráfico 1: Evolução da Inadimplência total dos empréstimos garantidos por imóveis nos EUA

 

Em uma linha lógica de raciocínio, devemos nos perguntar por que os bancos continuavam emprestando dinheiro à mal pagadores e, conforme relatado na película, por que nenhuma dessas grandes corporações sequer se preocupou em avaliar qualquer risco de inadimplência no setor imobiliário? A resposta foi dada nos últimos 20 minutos o filme, em menos de 2 minutos: o chamado Bailout, uma prática idealizada inicialmente por seguidores de John Maynard Keynes (ao criticar a Lei de Say, em “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, propondo a intervenção estatal na economia para aquecer a demanda e gerar emprego que derivou ações como bailouts, quantitative easing, etc.) e secundada por inúmeros macroeconomistas do séculos XX e XXI. Segundo a Forbes, o governo norte americano entrou com, não apenas US$ 700 bilhões, mas sim expressivos US$ 16,8 trilhões para socorrer os “grandes demais para falir”.

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Gráfico 2: Evolução da Mediana dos preços dos imóveis nos EUA

Entretanto, seria somente a garantia da ajuda estatal o único fator incentivador de más práticas por parte das grandes corporações financeiras? Um dado relevante para a análise é a evolução dos preços dos imóveis nos EUA ao longo das décadas (Gráfico 2). Enquanto o aumento durante década de 70 é explicado pela crise inflacionária da época e, em 80 por uma mini-bolha no setor, a escalada dos preços nos anos 90 foi suplantada pela criação das empresas Fannie Mae (Federal National Mortgage Association) e Freddie Mac (Federal Home Loan Mortgage Corporation), cujo objetivo era de garantir liquidez ao mercado de hipotecas imobiliárias, sendo suportadas fortemente pelo governo através de leis e regulamentações.

A relação entre o surgimento dessas empresas e o aumento no preço dos imóveis é explicado pela forma como essas empresas atuavam em conjunto com os bancos: um indivíduo tomava um empréstimo junto ao banco, o banco vendia o empréstimo para Fannie Mae ou Freddie Mac e então usufruía de um aumento no seu ativo, sem qualquer alteração no seu passivo e livre de riscos de inadimplência. O frenesi causado por essas duas empresas aumentou vertiginosamente a concessão de empréstimos por parte dos bancos e a procura por empréstimos imobiliários por parte do cidadão comum, graças a garantia de liquidez dos direitos dos empréstimos inicialmente concedidos pelos bancos. Naturalmente, como a demanda por imóveis subiu muito além da oferta de imóveis, o preço desses bens subiram a passos largos, devido a facilitação para se adquirir e vender um imóvel.

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Gráfico 3: Crédito Bancário (Azul), Crédito Imobiliário (Vermelho)

A escalada do total de créditos concedidos para aquisição de imóveis, até a ruptura de 2008, estava em uma relação de próxima de 1/2 com o total de créditos concedidos pelo setor bancário norte americano, conforme ilustrada no Gráfico 3. Uma proporção pouco saudável para o desenvolvimento sustentável de uma economia moderna.

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Gráfico 4: Taxa percentual de desemprego nos EUA

O problema na linha histórica do filme baseado no livro de Michael Lewis está em justamente não observar como todos esses incentivos, originários no governo americano, culminaram no maior desastre econômico do séc. XXI. Um filme em que falha ao ilustrar como a criação de dígitos ex nihilum em contas bancárias é prejudicial para a economia ao criar uma falsa sensação de prosperidade e tudo isso aprovada e estimulada por burocratas, políticos e membros dostabilisment. Famílias que adquiriram imóveis na época, criaram dívidas e mais dívidas em nome da casa própria, desfrutaram poucos anos da moradia e, após o colapso, estavam em situação igual ou pior, dados os respectivos custos de oportunidade. Isso significa, em outras palavras, aumento de casas vazias, ativos ociosos e aumento de desemprego, tudo isso aprovado e estimulado por burocratas, políticos e membros do establishment.

O erro, portanto, não está simplesmente nos bancos e agências financeiras e de risco. A falha está em toda a formação e regulação do mercado financeiro norte americano que permite comportamentos irresponsáveis e danosos, tanto no bem-estar individual, quanto no bem-estar agregado, como fetichizado pelos macroeconomistas, sendo que esses incentivos perversos dificilmente estariam presentes em uma economia de laissez-faire ou de capitalismo puro.


Referências:
http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1696
http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2287

http://www.forbes.com/sites/mikecollins/2015/07/14/the-big-bank-bailout/ 

http://www.afoiceeomartelo.com.br/posfsa/Autores/Keynes,%20John/Keynes%20-%20Os%20economistas.pdf

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